Do Êxtase à Queda:O que a Psicanálise diz sobre a Copa do Mundo?

Do Êxtase à Queda:

O que a Psicanálise diz sobre a Copa do Mundo?
De quatro em quatro anos, o mundo para. Em questão de segundos, bilhões de pessoas transitam do topo da alegria para o abismo da frustração. Mas por que um jogo de futebol mexe tanto com a nossa cabeça? Para a psicanálise, o campo é, na verdade, um grande espelho do nosso inconsciente.

Quando torcemos, o nosso “Superego” — aquela instância psíquica severa que cobra maturidade e produtividade no dia a dia — finalmente relaxa. É dada a largada para uma regressão permitida: voltamos a ser crianças, choramos em público, pintamos o rosto e abraçamos desconhecidos. É a catarse em estado puro.

Nesse processo, projetamos na seleção o nosso “Ideal do Eu”. Os jogadores viram extensões da nossa própria busca por potência. Quando o time vence, a ilusão é perfeita: sentimos uma sensação de completude, como se todas as frustrações da nossa vida real fossem apagadas por um gol. É o ápice do narcisismo coletivo.

O problema é que a queda é proporcional à altura da ilusão. A derrota na Copa funciona como o choque inevitável com a realidade — o que Jacques Lacan chamaria de encontro com a castração. O apito final da eliminação nos arranca da fantasia de onipotência e nos devolve, sem anestesia, às nossas faltas cotidianas, aos boletos e à nossa fragilidade.

O silêncio que toma conta das ruas após a perda é o luto por essa ilusão desfeita. Mas o desejo humano é teimoso e movido pela repetição. Daqui a pouco tempo, o mesmo torcedor que jurou nunca mais sofrer estará comprando outra camisa. Afinal, torcer é aceitar o risco da frustração pelo prazer inigualável de, por noventa minutos, acreditar na ilusão da completude.
Autor: José Carlos Soares