Cinco na Escola, Três na Vida.

Cinco na Escola, Três na Vida.

Cena 1

Entre 10 e 11 anos, eram cinco meninas.

Encontraram-se no colégio e, sem saber, firmaram um pacto silencioso: crescer juntas. Descobriam o mundo lado a lado — o corpo que mudava, os segredos cochichados, as provas, os risos que pareciam eternos. Eram cinco aprendendo a existir.

Cena 2

Na adolescência, vieram os sonhos. Profissões, futuros possíveis, amores ainda imaginados. Falavam de casamento, de filhos, de destinos que pareciam garantidos pela força da amizade. Também vieram as primeiras dores — pequenas, comparadas ao que ainda não sabiam.

Cena 3

Aos 18 anos, o tempo se rompe.

Uma delas morre.
Nove meses depois, outra também parte.

E ficam três.

Três meninas com a mesma idade, mas já atravessadas por algo que não cabia na juventude.

Cena 4

O que aquelas três viveram tem um nome: luto.

O luto não é apenas tristeza. É ruptura. É o desmonte silencioso de um mundo que parecia evidente. Não se perde apenas uma pessoa — perdem-se futuros compartilhados, hábitos, risadas internas, versões de si que só existiam naquele laço.

Na psicanálise, entendemos o luto como um processo necessário e doloroso de reorganização psíquica diante da perda de um vínculo significativo. Não se trata apenas da morte: pode ser o fim de um amor, de um trabalho, de uma condição de vida. O que está em jogo é sempre a quebra de um investimento afetivo.

Foi isso que Sigmund Freud descreveu em Luto e Melancolia (1917). No luto, sabemos quem perdemos — ainda que nem sempre saibamos exatamente o que daquele outro sustentava em nós. A dor é consciente. O mundo perde a cor. Há um recolhimento da energia antes dirigida ao vínculo que se foi.

Com o tempo — e apenas com o tempo — essa energia pode encontrar novos destinos. Não substitui. Não apaga. Mas se desloca.

Freud diferencia esse movimento da melancolia. Nela, a perda atinge o próprio eu. A pessoa não sofre apenas pela ausência do outro; sofre como se tivesse perdido a si mesma. A autoestima se abala, e a dor se torna mais silenciosa e profunda.

O luto, ao contrário, embora exija atravessamento, tende a se transformar.

Cena 5

Quase aos 60 anos, as três estão sentadas em um café.

Conversam. Riem. Recordam.

As duas que morreram não estão ali — e, ainda assim, estão. Nos gestos repetidos, nas histórias que voltam, no silêncio compartilhado que não precisa de explicação.

As meninas nunca deixaram de ser cinco.

Talvez o luto seja isso: não uma ausência que se instala para sempre como vazio, mas uma presença que muda de lugar. No início, é choro forte e constante. Depois, torna-se uma memória que às vezes aperta o peito — uma lágrima discreta que surge entre um sorriso e um gole de café.

A vida seguiu para as três. Trouxe amores, perdas, filhos, trabalhos, decepções e alegrias. O luto não impediu a vida. Também não desapareceu. Ele apenas encontrou outra forma de morar nas três meninas.

Não esquecer.
Não substituir.
Não apagar.

Mas aprender a seguir com aquilo que permanece.

E, se você estiver atravessando um luto e sentir que o sofrimento pesa demais, buscar ajuda de um profissional da saúde mental pode ser um gesto de cuidado. Há perdas que precisam ser acompanhadas para que não se transformem em solidão.

À Di e à Fá — sempre nossas.

*

Sandra Marcondes

Psicanalista, advogada e com a esperança sempre carregada no coração!